
Entre 21 de janeiro e 15 de fevereiro, o Teatro do Bairro acolhe O Apaixonado Extravagante, a partir de La Place Royale ou L’Amoureux Extravagant, comédia publicada em 1637 por Pierre Corneille. A encenação é de Jorge Cramez, que regressa ao texto do dramaturgo francês depois da sua adaptação cinematográfica livre em Amor Amor (2017), agora numa leitura cénica que privilegia a palavra, a ironia e a inquietação contemporânea que atravessa a obra.
Considerada por muitos a comédia mais moderna de Corneille, La Place Royale foi escrita antes das grandes tragédias que consagrariam o autor, distinguindo-se por deslocar o centro da ação do conflito social ou moral para uma recusa íntima do compromisso amoroso. O protagonista não é um libertino triunfante nem um romântico ingénuo, mas um homem dominado pelo receio de perder a sua liberdade interior, disposto a destruir o amor para não se submeter a ele. Essa lucidez excessiva, quase cruel, antecipa figuras do teatro moderno em que o cálculo e a coerência consigo mesmo conduzem à solidão. Longe de uma simples intriga galante, a peça trabalha temas estruturantes da obra de Corneille — a liberdade, a fidelidade a si próprio e o sacrifício do afecto — tratados aqui com leveza, urbanidade e uma ironia fina que a torna surpreendentemente actual.
Nesta produção, Jorge Cramez apresenta uma tradução inédita de Luís Lima Barreto e Fátima Ferreira, colocando em cena um elenco maioritariamente constituído por actores da companhia do Teatro do Bairro, num trabalho que sublinha a tensão permanente entre comédia e desilusão. A encenação aposta numa leitura clara e dinâmica do texto, evidenciando o seu ritmo, a inteligência dos diálogos e a complexidade psicológica das personagens.
A ação gira em torno de Angélique e Alidor, que se amam e parecem destinados a um final feliz, não fosse a extravagância do amante-filósofo, que valoriza a liberdade acima do próprio amor. Incapaz de se entregar, Alidor concebe um plano absurdo para se libertar de Angélique, tentando entregá-la ao seu melhor amigo, Cléandre, através de uma falsa carta de amor. A intriga adensa-se quando Phylis, amiga da jovem, aproveita a situação para a convencer a aceitar o pedido de casamento de Doraste. Entre cartas trocadas, sequestros nocturnos e sucessivos mal-entendidos, a trama desenrola-se num jogo de fintas e reviravoltas que culmina numa liberdade alcançada à custa da renúncia absoluta do outro.
Com interpretações de Carolina Campanela, Carolina Serrão, Eduardo Frazão, Francisco Vistas, Jaime Baeta e João Sá Nogueira, O Apaixonado Extravagante confirma-se como uma comédia cruel e elegante, que questiona o amor, a autonomia e o preço da lucidez. Ao trazê-la de novo ao palco, o Teatro do Bairro reafirma a vitalidade dos clássicos quando revisitados à luz das inquietações do presente, convidando o público a descobrir — ou redescobrir — um Corneille inesperadamente próximo do nosso tempo.

